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TEXTO I

“O Kendo e sua História”
por Toshinobu Endo Sensei

No Japão, desde os seus primórdios, dentre vários armamentos, a espada vem sendo reverenciada. Isso se deve ao fato de haver muitas histórias relacionadas à espada, nos mitos e lendas japonesas. Além disso, as espadas eram ofertadas como tesouro divino aos templos ou recebidas como símbolo da nomeação de um generalíssimo.

A espada, assim reverenciada, era eficaz como artefato de segurança e também necessária para se proteger da invasão inimiga e para preservar a paz e a ordem estabelecida. Além disso, era respeitada como alicerce espiritual do seu portador, expressando o sagrado.

Essa tradição de ver a espada como objeto sagrado e como tesouro ainda hoje persiste na cultura japonesa. Penso que essa percepção especial dos japoneses em relação à espada exerce influência na maneira como os japoneses percebem o Kendo desde sua criação na idade média japonesa, em seu passado recente, vindo até os dias de hoje. Ou seja, creio que a espada está ligada a cultura japonesa nos seguinte sentidos:

  • Ser a justiça que exclui a maldade e os maus espíritos;
  • Ser o símbolo da majestade, da função e da posição;
  • Simbolizar o compromisso e dar valor à lealdade;
  • Simbolizar o domínio do grupo e a paz.

Foram desenvolvidas pesquisas, sob vários enfoques, sobre o uso da espada japonesa no período feudal, que perdurou por cerca de 700 anos, desde o início da era Kamakura, em 1192 d.C., até a restauração Meiji, em 1868 d.C.

Por exemplo, até o ano de 940 d.C., toda espada reta (chokuto) tinha gume duplo (hiradzukuri). Supõe-se que a técnica para manejá-la era relativamente simples.

A lâmina reta, de até então, passou por um processo de transformação até apresentar uma curvatura e adquirir um gume e costas (shinogidzukuri). Essa transformação foi um longo processo moldado nos campos de batalha até que a superioridade desse novo formato prevalecesse.

Junto com a mudança em seu formato, a técnica de seu uso também evoluiu, ou co-evoluiu, já que forma e técnica são causa e consequência uma da outra. A técnica foi aperfeiçoada, tornando-se mais complexa.

Pelo fato da espada ter adquirido um formato de lâmina curvo e com costas, surgiu uma técnica de manejo aprimorada nos campos de batalha, que foi instituída como a técnica de esgrima japonesa. Essa veio a se firmar como a base técnica do Kendo atual.

Por volta do ano de 1350 d.C., o uso da espada japonesa deu um grande salto. A partir de 1467 d.C., por cerca de 100 anos, o Japão passou por um período de guerras civis. Como consequência, para a autoproteção ou para projetar-se na vida, surgiram muitos que quiseram aprender as técnicas do Kendo e aos poucos esse “caminho” alcançou a mais completa prosperidade.

Como consequência, a técnica foi estruturada sob o nome de Kenpo e surgiram especialistas em Kendo, sendo que muitas escolas tornaram-se transmissoras desses conhecimentos particulares a cada uma delas. Dentre essas escolas de Kendo da época, podemos citar as 3 mais tradicionais: a Shintoryu, a Kageryu e a Chujoryu.

O método de treinamento de Kendo daquela época não usava espada de bambu, nem protetores como usamos atualmente e, por consistir no treinamento sem proteção de rosto e mãos e empunhando uma espada de madeira, não permitia que se batesse livremente. Ao que parece, cada escola praticava repetidamente suas técnicas elaboradas, mas paravam os golpes muito próximos do rosto e das mãos, sem atingi-los.

O acúmulo de horas de treinamento fazia com que a pessoa lograsse parar o golpe próximo à pele do oponente e o grau de proximidade a esse, refletia o nível de desenvolvimento do praticante.

Nesse período, a era Muromachi, o Kendo era chamado de Heiho, o caminho do soldado.

A partir de 1615 d.C., com o sistema feudal já instalado, foi estabelecido o sistema de classes. Esse sistema propiciou ao Kendo um desenvolvimento especial, como algo próprio à classe guerreira, com um treinamento estimulante como forma de aperfeiçoamento. Assim, dentre os guerreiros, as técnicas do Kendo foram exploradas e aos poucos formatadas e estruturadas.

Por um lado, pode-se considerar que o Kendo, recebendo a influência do Zen-budismo e do confucionismo, aprimorou suas técnicas ao mesmo tempo em que ganhava elementos morais e espirituais. Logo começou a ser praticado pelos guerreiros como um treinamento educacional que visava a formação do caráter guerreiro para a vida cotidiana e para as atitudes espirituais. Isso significava que o desenvolvimento espiritual, conquistado por meio da prática do Kendo, conduzia ao caminho da formação do ser humano, cujo objetivo era o ideal de elevar o nível espiritual de seu cotidiano.

Por outro lado, também, pode-se pensar que uma das razões do estímulo ao desenvolvimento da inter-relação entre a estética e a técnica, se deve ao fato da forte característica cultural japonesa de buscar a estética.

Por volta de 1712 d.C., Yamada Heisaemon e Naganuma Shiro da escola Jikishinkageryu e Nakanishi Chuzo da escola Ittoryu, por sua vez, aproximadamente em 1754 d.C., propuseram protetores primitivos e, nos treinos de suas escolas, passaram a utilizar a espada de bambu, o que trouxe um formato de Kendo próximo ao que conhecemos na atualidade.

Nesse método de treino eram requisitados muitos elementos espirituais, que foram cultivados, provavelmente, como pano de fundo para a manifestação da técnica dentro do processo de treinamento e como usar de forma melhor e mais correta a espada de bambu, segundo os cânones da espada.

Como consequência, o Kendo, dentro do processo de treinamento de suas técnicas, desenvolveu a relação entre natureza humana e técnica, construindo, assim, as bases de uma filosofia do Kendo como caminho de busca para a vida e a existência humana.

Do início do fechamento do Japão ao mundo exterior, em 1639 d.C., até o ano de 1866 d.C., nos quase 230 anos que correspondem à era de isolamento do Japão, devido à continua paz reinante, a necessidade de uso de arma de fogo foi abolida e o desenvolvimento desses artefatos interrompidos. Apesar disso, o uso da espada perdurou ao longo dos séculos. E como consequência, o Kendo, de um caminho cuja técnica era posta a serviço da luta física, que punha em jogo a vida ou a morte, acaba por atingir um elevado patamar, cujo caminho visava a educação e a formação do ser humano.

Como resultado do povo japonês, que desde os seus primórdios, cultivou uma educação calcada no caminho da pena e da espada, surgiu o Kendo, que se desenvolveu visando a formação do ser humano e propiciando o caminho do guerreiro. Toda a evolução desta arte marcial ocorreu na era feudal, que perdurou por 700 anos, terminando em 1868 d.C. Com a restauração Meiji, como primeiro passo para a modernização, foram introduzidos muitos elementos culturais da civilização europeia no Japão e a cultura tradicional, por um tempo, foi deixada em segundo plano. Em 1876 d.C., a classe dos guerreiros – os samurais – foi extinta e, ao mesmo tempo, a prática de Kendo nas escolas foi abolida, chegando esta arte marcial até mesmo a defrontar-se com o perigo da extinção.

Mais tarde, em 1890 d.C., o Kendo volta a ser praticado nas escolas como atividade extracurricular e, novamente, aos poucos, prosperou.

Em 1895 d.C. foi criada a Associação Dai Nippon Butokukai, congregando todas as escolas de Kendo. Foi estabelecida uma política de difusão e de desenvolvimento da orientação desta arte marcial, cujas atividades prosperaram por todo o território japonês.

Entretanto, com a derrota na Segunda Grande Guerra Mundial e por ordem do Comando Supremo das Tropas Aliadas no Japão, em dezembro de 1945, a prática do Kendo foi totalmente proibida por ser considerada manifestação do ultra nacionalismo pré-guerra e parte importante do treinamento militar durante a guerra.

Mas, em 1952 d.C., com a entrada em vigor do Tratado de Paz, o Kendo começou a trilhar o caminho da revitalização e nesse mesmo ano foi criada a Liga Nacional de Kendo.

A tradição do Kendo não permaneceu como era outrora, foi se adequando aos novos tempos e modificações foram introduzidas para adaptar-se à sociedade moderna, formando o embrião do Kendo contemporâneo. Isso, inegavelmente, significa uma transição e transmissão cultural bem sucedida.

Quando da prática do Kendo, dentre os elementos que expressam a técnica, segundo o grau de desenvolvimento técnico do praticante, são de fundamental importância o espírito e o modo de encarar a vida do praticante, principalmente o quanto das regras de etiqueta o praticante internalizou.

Principalmente, em relação ao espírito podemos dizer que os tratados de transmissão de Kendo de escolas como Shinteitoryu, Kyoshinmeichiryu e Nenryu apontam que o treinamento espiritual não é apenas necessário e, sim, uma tarefa extremamente difícil de ser cumprida.

Além disso, a racionalização e a ética, que permeiam as relações humanas, as regras de etiqueta, que se desenvolveram a partir do desejo de desfrutar essa atividade e que privilegiam o decoro, a compreensão e o respeito ao oponente, se efetivam no praticante do Kendo, pela habilidade conquistada através do treinamento.

Essa postura faz nascer um “algo” em termos espirituais global. Esse “algo” é, ao mesmo tempo, a pessoa e o caminho da espada que a mesma percorre. Dessa maneira, desenvolveram-se gradativamente e sublimaram-se as técnicas do Kendo, assim cultuado, bem como a forma de levar a vida de seus praticantes e seus elementos espirituais. Estruturalmente, também, foi transmitida uma correlação estreita de interdependência entre seus elementos e podemos dizer, que hoje em dia, se constitui uma organização cultural própria do Japão.

Essa postura faz nascer um “algo” em termos espirituais global. Esse “algo” é, ao mesmo tempo, a pessoa e o caminho da espada que a mesma percorre. Dessa maneira, desenvolveram-se gradativamente e sublimaram-se as técnicas do Kendo, assim cultuado, bem como a forma de levar a vida de seus praticantes e seus elementos espirituais. Estruturalmente, também, foi transmitida uma correlação estreita de interdependência entre seus elementos e podemos dizer, que hoje em dia, se constitui uma organização cultural própria do Japão.

Assim sendo, podemos pensar que a estrutura da etiqueta em relação ao oponente, em especial dentro do estilo de vida e da técnica do Kendo, cultivado ao longo de um processo histórico, é o elemento central dessa cultura tradicional. O Kendo, diz-se, começa com uma reverência e termina com uma reverência. A relação dos participantes no treinamento é de companheiros que aprendem juntos o Kendo e, é central, a ideia de que não são oponentes em relação de enfrentamento.

O vencer ou perder de uma luta é uma questão casual e natural. O comportamento que evidencia a preocupação com a luta como algo sem consequência futura, algo apenas do momento presente, deve estar sempre na mente dos praticantes. Deve ser enfatizado um comportamento severo em relação a si próprio, o que leva o participante a regular o seu eu para, construindo a sua interioridade, elevar-se espiritualmente. É, em consequência desse comportamento, que nasceu o espírito cortês que reverencia o parceiro e a honra.

No treino, quando não está ainda controlada a excitação psicológica, decorrente de severos ataques e defesas, é fundamental que os participantes façam mutuamente uma cortês reverência, refreando essa excitação. Através desse gesto, acredita-se que se está forjando a própria interioridade que controla as ações.

O fato de obedecer um formato assim rígido, propicia o autocontrole e a autodisciplina e é algo que leva ao “caminho” – DO – que busca a existência e a forma de vida humanas. É algo que educa o espírito e enobrece o coração para a justiça do ser humano.

Em resumo, o Kendo é uma prática que privilegia a reverência correta e cortesia para com o oponente e a atitude severa para consigo mesmo, cujo sentido está na educação de um espírito justo e honrado. Assim, observando esta arte marcial através da história, vemos que essa prática possui um profundo conteúdo espiritual e educacional.

Olhando para o futuro, percebemos que o Kendo, por ter esse caráter espiritual, não perderá suas características e sua forte ligação com a cultura japonesa. Com o passar do tempo, e sempre apoiando-se nas tradições do passado, buscará novos métodos e conhecimentos para levá-lo a uma posição ainda mais valorosa e de destaque espiritual. Penso ser essa a missão dos que praticam Kendo.

Muito obrigado pela atenção,

Toshinobu Endo
Federação de Kendo do Rio de Janeiro – Presidente

 

TEXTO II

“Apresentando Harada Genji”

(Journal: 2.2 Hanshi Says – Featuring Harada Genji).  Publicado originalmente na Kendo World Magazine, Vol. 2 ed. 2, 2003. Traduzido para o inglês da série Kendo Jidai por Alex Bennett. Tradução livre para o português por Fernando F.F.Ferraz. Qualquer erro de tradução é de total responsabilidade do tradutor.

Nascido na província de Iwate em 1925, Harada sensei iniciou seu estudo de Kendo após ingressar na escola secundária. Em 1943, ele ingressou no Colégio de Educação Física de Tóquio (Universidade de Tsukuba). Graduando-se 4 anos depois, ele começou a lecionar no ensino secundário na província de Kanagawa, e mais tarde voltou para a sua província natal. Em 1985 parou de lecionar. Ele treinou seus alunos com grande sucesso nos campeonatos escolares, e foi também um competidor muito bem sucedido, fazendo numerosas participações no Campeonato Nacional de Kendo do Japão (All Japan Championship), Encontro Nacional de Esportes (National Sports Meet), Tozai Taiko, Torneio Meijimura 8o Dan entre outros. Ocupou freqüentemente posições administrativas na AJKF, All Japan School Kendo Federation, e federações locais.

  1. Como você pode sacrificar a si próprio (entregar-se [1]) em um ataque?

À medida que você progride com o seu treinamento você gradualmente melhora seu vigor e o nível de sua técnica. Um exame de graduação é um teste da técnica que deve ser vista se você está preparado para aquele grau (Dan) particular. Quando faço parte de uma banca, eu presto particular atenção se o candidato está apto a fazer uso de tudo que ele tem. Isto também possui vários níveis. Por exemplo, um candidato a shodan tem de ser capaz de atacar implacavelmente. Um candidato a nidan deve ser capaz de fazer o mesmo com mais intenção baseado em um entendimento rudimentar de semê. O denominador comum de tudo é ter a habilidade para sacrificar-se (entregar-se 1) por completo no ataque uma vez que este é iniciado.  Isto é chamado “sutemi ”. O maior grau, o maior nível de “ri ” (razão, princípios) é exigido. Em outras palavras, se o seu oponente tem um forte kensen e você ignora isso e se entrega em um ataque, por essa razão este não é considerado um ataque com sutemi. Um ataque, especialmente em altos níveis, deve ser realizado com espírito de entrega, mas este deve ser desferido apenas se todos os critérios estão de acordo com “ri ”. Em outras palavras, o ataque nunca deve ser aleatório.

Dignidade e qualidade de estilo em kendo podem ser obtidas apenas através desse tipo de treinamento.

Do Kyoto Taikai (torneio anual de kendo realizado no mês de maio) de 1974, eu tenho uma lembrança da luta entre Hanshi Ogawa Chutaro e Hanshi Kurozumi sensei fortemente gravada em minha mente.  Esse foi um dos mais impressionantes combates que já vi. Eu pude assistir a luta da primeira fila, e ainda me lembro estremecendo de emoção como a luta prosseguiu. Eles se encararam a uma distância um pouco maior do que issoku-itto-no-maai (distância de um passo um golpe). A pressão que eles aplicaram um sobre o outro era intensa.

Após algum tempo, Ogawa sensei, no seu kamae caracteristicamente recuado, baixou seu kensen e deslizou com três pequenos passos em direção ao espaço de Kurozumi sensei e então executou um perfeito ataque a men de livros de kendo. O ataque desceu subitamente em sua cabeça e quase vi como se fosse feito em câmera lenta. Kurozumi sensei inclinou sua cabeça em deferência, e os dois se afastaram lentamente recuando até suas marcas de início. A platéia inteira ficou espantada em um misto de admiração, respeito e temor e então explodiu em aplausos em reconhecimento ao maravilhoso espetáculo que todos nós tivemos o privilégio de testemunhar. Para ser honesto eu não estava exatamente certo do significado do que eu tinha acabado de ver, mas entendi que eu tinha acabado de assistir a um dos profundos mistérios do kendo.

No ano seguinte, encontrei Ogawa sensei em um seminário em Morioka, e tive a oportunidade de perguntar a ele sobre a luta em Kyoto.

“Ah aquilo? Sim, eu não estava mesmo consciente de minhas ações. Foi como se eu nem mesmo estivesse lá”.

Eu não sabia com certeza o que ele queria dizer, mas refleti sobre sua resposta por muitos anos. Finalmente eu cheguei à conclusão de que antes do ataque, durante o ataque e depois do ataque ele tinha se entregado de corpo e alma. O “sutemi” supremo.

Eu também tive uma oportunidade de perguntar a Kurozumi sensei sobre essa luta.

“Eu não podia fazer nada contra aquele men. Não foi um golpe destruidor que despedaçou minha cabeça, mas sim um golpe agradável e gentil”.  Eu fiquei emocionado pela forma como aqueles dois grandes mestres se respeitavam tanto. Eu passei seus comentários para Ogawa sensei, e ele inclinou a cabeça assentindo em silêncio.

Dar o máximo de si é sempre uma tarefa difícil, especialmente em um exame de graduação onde você está inevitavelmente nervoso com todos aqueles olhos observadores vigiando todos os seus movimentos. Se você puder executar seu melhor kendo sob essas circunstâncias, isso tem de ser de valor para você na sua vida diária. Ogawa sensei uma vez disse ”dar o máximo de si no kendo é vida diária”. Nunca foram ditas palavras tão verdadeiras. Contudo, tentar derrotar seu oponente com truques baratos nunca levará a esse tipo de crescimento espiritual.

Nós com freqüência dizemos para fazer “o bom kendo”. Contudo, não existe tal coisa como kendo “bom” ou “ruim” por si só.  Kendo é intrinsecamente uma boa coisa. O que o faz parecer bom ou ruim depende da disposição mental das pessoas que o praticam. A mente está sempre se desenvolvendo, e esse é o porquê da grande ênfase dada ao estado mental à medida que progredimos mais e mais a cada graduação que obtemos no kendo. “Sutemi” se baseia nesse desenvolvimento, e é algo que deve ser perseguido direto sem interrupção até o fim.

2.  “Sen” e “Rinki-ohen” -  Tomar a iniciativa e habilidade de reagir a qualquer situação (Sen = Quando o oponente percebe uma fraqueza e inicia um ataque, você vence por golpear de volta antes do golpe do oponente ser bem sucedido).

O lendário Mochida Seiji sensei sempre praticou kendo ajustando sua visão em alcançar sen, a iniciativa. Esse é o conceito mais importante no kendo. A sutileza no kendo está na luta para ter sen, e isto é o que os examinadores procuram.  A partir do momento em que você tem sen, você deve ser capaz de reagir a todos os movimentos que seu oponente fizer.  Ao contrário, se você não é capaz de lidar com os movimentos de seu oponente, isto é a prova de que você não atingiu o controle do sen, e precisa treinar mais.

O segredo para entender e ser capaz de conseguir sen, é em primeiro lugar treino, e em segundo, mais treino.  Para este propósito, eu aproveito todas as oportunidades para treinar em todos os dojos que eu posso com a atitude de que “todos são meus professores”. Eu também me esforço para realizar o primeiro corte bem sucedido. Iniciantes e crianças sempre fazem ataques incessantes, sem pensar no que estão fazendo. Eles estão impenetráveis às sutilezas do kendo, e isto faz com que seja extraordinariamente difícil conseguir sen. Em contrapartida isto é muito significativo para aprender a como lidar com esta situação. Quando encaro tais oponentes, tento lembrar como era no início, quando eu comecei a praticar kendo, e treino adequadamente. Ao treinar com crianças, tento não destruí-las, e sim aliviar meus golpes e atingi-las levemente. Isto os encorajará a se esforçarem mais.

Apesar de estar na posição de professor, eu acredito firmemente que o instrutor deve aprender e estudar junto com seus alunos. Eu percebi a importância disso através de meu professor, Yokoyama sensei, quando eu estava na escola ginasial em Iwate. A menos que algo importante acontecesse, ele sempre tentava estar no dojo todos os dias. Nunca compreendi como isso era difícil até que eu mesmo me tornasse um instrutor, mas isso é importante para os alunos.

Quando eu estudava no Colégio de Educação Física de Tóquio, fiquei sob a instrução de Mihashi sensei. Ele também era um treinador dedicado.

“Conseguir um golpe correto quando você não consegue mais nem sequer reunir força suficiente para se mover é o que você tem que se esforçar para conseguir”.

Em última análise, um verdadeiro ippon, ou ponto, é aquele que é registrado quando se está em um estado de não-mente, inconsciente de suas ações. A habilidade para fazer isso ou o que eu ganhei disso é um dos meus maiores bens.

Voltando ao tópico sen, ser capaz de capitalizar a obtenção do sen e reagir adequadamente, o posicionamento correto de sua mão esquerda e usar seu pé esquerdo no semê é de vital importância. Isto é outra coisa que eu presto atenção quando estou em uma banca de julgamento.

Quando eu fui reprovado pela segunda vez em meu exame para 8o dan, eu fiquei perdido sobre o que fazer. Recebi conselhos de três grandes mestres, e embora suas palavras fossem diferentes, eles me falaram essencialmente a mesma coisa.

“Seu ombro esquerdo está alto demais”.

“Seu pé esquerdo está apontando para fora, e seu cotovelo esquerdo está alto demais”.

“Sua mão esquerda está alto demais, e seu pé esquerdo está ineficaz”.

Tudo se referia de fato ao posicionamento da minha mão esquerda e o uso de meu pé esquerdo. Em outras palavras, minha mão esquerda não estava posicionada enfrente ao meu seika-tanden (região inferior do abdômen), e eu não estava usando meu pé esquerdo como um ponto central para o meu semê e meu movimento.

Eu imediatamente tratei de aplicar esse conselho em meu treino, mas não foi fácil. Eventualmente decidi apenas deixar e não me preocupar se eu consegui acertar ou não. Eu pensei que seria capaz de me soltar gradualmente, e conseqüentemente, fui capaz de executar a vontade os golpes com sucesso sem desperdício de movimento.

Freqüentemente é enfatizado que a mão esquerda e o pé esquerdo têm um papel crucial no kendo, e foi uma grande oportunidade para eu reavaliar meu kihon. Em um exame, os candidatos que têm esse aspecto do seu kendo sob controle se destacam, pois seu movimento é poderoso e firme. Quanto a ter sen, isto também tem aplicações na vida diária. Em outras palavras, ter sen na vida se refere a ter um ponto de vista positivo das coisas. Ter uma disposição positiva é a chave para criar seu próprio caminho. Exames de graduação são a mesma coisa.

3.  Pegar o “ki” do seu oponente e golpear harmoniosamente.

Kendo é um conflito de ki. É importante fazer uso do ki do seu oponente. Após chegar aos 40 anos de idade, um sensei uma vez me disse para praticar kendo como se eu estivesse absorvendo a expiração (ki) do meu oponente. Desde então eu tenho me esforçado para conseguir isso, mas foi preciso mais de 10 anos de duro esforço antes que eu fosse capaz de me movimentar harmoniosamente com o fluxo do meu oponente ao invés de me movimentar contra ele. Eu finalmente consegui isso graças a um conselho oportuno de Ogawa sensei.

“Não inspire e mantenha sua respiração no seu abdômen inferior. Deixe-a passar através do abdômen e descer através de seus pés. E então ela subirá fluindo de volta ao seu corpo, e isto é o que você deverá eventualmente segurar dentro de seu tanden. Isto é o ki verdadeiro”.

Interpretei isso como o mesmo que “shinjin no iki ” relatado por Takano Sasaburo. Isso não significa reprimir o ki no tanden, mas deixá-lo flutuar e unir-se com o ki do seu oponente. Absorver o ki de seu oponente não tem um significado literal, mas sim o de conseguir sentir todo o seu movimento, o que por sua vez guiará você em seus movimentos.

Finalmente, o melhor conselho que eu posso dar é treinar com um estado de espírito correto. Ogawa sensei uma vez me disse “kendo é keiko (treino[2]).” Guardo isso comigo e treino tão duro quanto possa e tantas vezes quantas eu possa.

***


[1] A expressão original em inglês é  “sacrifice yourself ”, cuja tradução exata seria “sacrificar-se”.  A expressão em português “entregar-se” foi acrescentada por ter, neste caso, o mesmo sentido e ser de uso mais corrente, sendo assim usada ao longo do texto no lugar de sacrificar (se).  N. do T.

[2]  A palavra keiko em japonês significa treino, ou prática constante. A tradução direta no texto é minha. N. do T.

 

 

2 ideias sobre “Artigos

  1. Muito bom o texto. Merece reflexão e releitura, a fim de aprofundar o conhecimento sobre kendo. Obrigado por traduzí-lo e publicá-lo aqui, Fernando.

    • Salve José Antonio! Que bom que gostou…o texto é mesmo muito bom e guarda mais ensinamentos do que a princípio pode parecer! Volto a lê-lo de tempos em tempos e sempre me surpreendo com as novidades que ele me revela! Obrigado a você pelo comentário! Assim que puder traduzirei outro! Grande abraço!

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